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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Desculpem-me, amigos e amigas.

Com isto dos anos em cima e com a nossa história a ficar desejavelmente mais arrumada e ainda depois de termos sido mães, há coisas que fluem de outra maneira. 

Nunca admiti, sem ficar incrivelmente triste, que um amigo se esquecesse do meu dia de aniversário, ou que não fosse a uma festa minha ou que soubesse que os meus dias andassem a ser mais complicados e não me dissesse nada. 

Agora, aos 31, mãe de uma miúda, é diferente. 

Desculpem-me amigos e amigas. 
Muitos de vocês que ainda não são pais e mães e que julgam que me afastei.

Desculpem-me amigos e amigas.
Muitos de vocês que, na volta, já nem se lembram de me convidar para coisas.

Desculpem-me amigas. 
Vocês que sei que me adoram, mas que já não consigo ter tempos mortos para conversa.

Desculpem-me amigas. 
Vocês que querem jantar comigo, almoçar comigo, ir algures comigo e eu não pareço interessada.

Desculpem-me amigos. Amigos de longa data. 
Vocês que não entendem como funciono, como é a minha vida agora e que o tempo me aflige e o que me sobra é para nada. 

Desculpem-me, queridas amigas. 
Amigas que já partilhei tanto nos últimos anos em tantas conversas no telefone e em alguns encontros e agora parece que não quero saber.
Não é verdade. 
Eu quero saber, mas "ando a mil". 

Penso em vocês todos os dias e é um alfinete que me pica o coração, mas não consigo.
Não consigo sair do carrossel em que estou neste momento e parar um pouco para respirar convosco. 

Quando consigo respirar, não quero falar com ninguém, quero estar no sofá e adormecer no momento mais feliz do dia. 

Eu amo-vos. E, como vos disse, todos os dias me lembro de vocês, mas há sempre aquela sopa que precisa de ser feita, o detergente da máquina que acabou, aquele e-mail que falta enviar, aquela constipação, aquele fim-de-semana em que se tem de ir picar o ponto aos avós, aquele... 

Desculpem. Sei que parece ridículo.

Sei que corro o risco de, um dia, quando sair do carrossel, não ter nenhum de vocês à minha espera. 

Mas, também sei, que, com o tempo, começamos todos a encaixar melhor o tempo de distância e não o ver como uma separação, mas como um intervalo. 

O silêncio de uma batida do coração, apenas. 

Desculpem-me amigos e amigas, mas amo-vos. 

Ana, Eugénia, Inês, Elsa, Susana, Joana, Renata, Filipe, Pedro, Diogo, Rita, Bibi, Bruna, Vera, Cláudia, Zé Pedro... 

Também tenho saudades vossas. A sério. Acreditem em mim. 





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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Não sei cozinhar.

Não sei. E acho que saber me iria fazer mais feliz.

Aquilo que cozinho nem costuma sair mal, é o chamado "come-se", tirando os "hambúrgueres da selva" que uma vez fiz para a Irene e que faz com que sempre que me oiça a fritar algo pergunte: "

Irene: Não são os hamburgueres da selva, pois não?

Eu: Não, filha, não são...  - por dentro, rio-me enquanto me cai uma lagriminha de tristeza.

Coitada da miúda. 

Por achar que não sei cozinhar, raramente lhe consigo dar comida com mais de um dia. Se aquilo já não me parece ter bom aspecto quando termino - raio de insegurança - quanto mais ainda com uns dias de atraso...? Não estou a dizer que a deite fora, mas que me custa, custa. 

Não cresci a ver alguém a cozinhar. A minha mãe dirá que terei recusado imensos convites para aprender, mas agora sinto que tudo seria melhor se tivesse sido envolvida enquanto se cozinhava. Ainda hoje, como é dia de cozinhar, já estava a pensar em actividades para a Irene enquanto ia cozinhar e rapidamente me apercebi que a vou envolver. 

Não quero que ela chegue aos 25 anos e não saiba fazer uma sopa. E não quero que vá pedir a um dos seus melhores amigos para ensinar e que, muito menos, diminua o valor que tem de si mesma por não ter sabido fazer uma coisa tão simples. 

Por isso, hoje, Irene, vais ver a mãe a tentar fazer o melhor frango de sempre. Também não sabe cortar um frango, mas há de haver um vídeo no youtube a explicar e ensinar-te-ei estas coisinhas enquanto não me puderes dizer que não. Ou, quem sabe, apanhas o gosto de pequenina e cozinharmos juntas passará a ser uma coisa só nossa.




Melhor ainda: cozinharás para mim enquanto estou na sala a ver a This is Us. 

Já agora, os hambúrgueres da selva foi uma vez em que decidi inovar na cozinha e juntar banana e côco aos hambúrgueres. Não foi um jantar feliz e, seis meses depois, ainda nos lembramos disso, ahah. 



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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

É difícil ser mãe sozinha, não é?

A Irene tem pai e avós, claro, mas no dia-a-dia, a logística de estar sozinha com ela é complicada. Também surgem muitas coisas positivas com o divórcio - senão não teria acontecido - mas há umas tantas que me têm esgotado muito também. 

Nada parece horrível porque é ela. E porque somos nós, mas a verdade é que há dias em que a energia desaparece e em que tudo parece mais cinzento. 

Fotografia Joana Hall


- ROTINA MATINAL

A ansiedade de manhã é maior. Sozinha tenho de me assegurar de tudo o que se passa ser feito com tempo e a horas. O pequeno-almoço tem de ser preparado, a miúda tem de estar arranjada e eu também me tenho de arranjar pelo meio. Já desisti de me maquilhar em casa, ligo a televisão enquanto tomo banho para me dar alguns segundos de descanso e ela toma o pequeno almoço no meu quarto para estar mais perto de mim e menos sozinha enquanto tomo banho. Claro que podia preparar o lanche no dia anterior (que inclui fazer um desenhinho para ela sorrir quando o for comer), mas raramente acontece. 

- CHEGAR À ESCOLA

Sou eu quem a levo e comigo o desprendimento é smais complicado do que quando era com o pai a levá-la. No meio de tudo isto é já tarde e tenho horas para picar o ponto no trabalho, embora gostasse de ficar lá mais tempo a brincar com ela. Tive de desistir do ginásio de manhã porque levá-la uma hora mais cedo para estar uma hora no ginásio a treinar e ainda tomar banho à pressa para vir trabalhar não estava a resultar para nenhuma das duas. 

- IR BUSCAR à ESCOLA

Não há cá "deixa ver se ele pode ir buscar hoje". Tenho de a ir buscar, quero ir buscar o mais cedo que puder, mas ser todos os dias a pessoa que tem essa obrigatoriedade, além de não ajudar nalguma flexibilidade no trabalho com tarefas e afins, é uma responsabilidade grandalhona. 

- TAREFAS DA CASA

Ter que, naquela hora ou horas que temos com eles de, pelo meio, arrumar a loiça, tratar da roupa, preparar o jantar, dar banho, dar a comida, comer, lavar dentes, história... 

- ADORMECER

Aquele ritual que, quanto mais cansadas estivermos, mais difícil é. Demora tanto meia hora como duas e, pelo caminho, a paciência vai diminuindo enquanto o sentimento de culpa aumenta. Temos de ser nós, não há outra hipótese. 

E isto é quando nenhuma das duas está doente ou se tem de levar trabalho para casa ou... 

Hoje estou muito cansada e tenho de pensar em "largar" rotinas antigas para incluir mudanças que me facilitem a vida, mas não consigo pedir mais nada à minha cabeça de momento.

Sinto-me feliz, grata, mas esgotada. Melhores dias virão em que não acordo a sentir que o meu corpo não parou de correr a noite toda...

Mães "sozinhas" têm truques? 



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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Não sei para onde vou.

Não sei para onde vou. Tenho 31 anos e não sei o que o futuro me reserva. Não sei bem o que vou fazer. Não que tenha dúvidas do(s) meu(s) talento(s), mas tenho medo. Tudo me parece difícil de concretizar ou não sei bem como lá chegar. Pelo menos não sem pesar todos os prós e os contras e encaixar as minhas filhas em novos projectos. Não sem ponderar bem o que desejo para elas e para mim, enquanto família também.

Agora que já provei o gostinho de as ir levar tarde e buscar cedo (e o bem que isso nos faz) é como se o regresso para um trabalho mais "convencional", no qual os horários esticam, me causasse alguma angústia. Mas a vontade de uma nova aventura está lá. A vontade de voltar a sentir-me livre criativamente, de voltar a estar com pessoas, de trabalhar em equipa, de sentir aquele nervosinho de prazos a terminar, de metas por cumprir. 

Só estou bem aonde não estou? Sim, talvez. Sempre fui esse bichinho inconformado que nunca consegue estar parado. Estudei para ser jornalista, mas acabei por me apaixonar pelo entretenimento. No entanto, grávida da segunda filha, despedi-me para poder ser mãe a tempo inteiro e dona de casa. Tive a experiência mais maravilhosa da minha vida ao estar um ano e três meses dedicada à minha filha mais nova, em casa. Não trocava pelo emprego mais bem pago do mundo. Fizemos ajustes, mudámos de cidade. Zero arrependimento. Fez-me ser e estar mais presente na vida delas. Mas agora que ela já se adaptou tão bem à creche, que já fizemos este desmame, sinto que posso dar o próximo passo. Queria uma coisa estável, que me garantisse um ordenado ao fim do mês, mas que me deixasse livre para criar. Que não fosse monótono. Voltar a trabalhar em televisão? Trabalhar numa agência de comunicação, quem sabe numa área mais virada para o digital? O que vou ser a seguir? Está tudo em aberto e isso é bom, só pode ser bom. 

Claro que às vezes me chateio por não ter a certeza absoluta da minha vocação. Invejo, de certa forma, aquelas pessoas super decididas, que sempre souberam o que queriam ser, estudaram para isso e são isso. Deve ser menos um peso na vida delas. 

Mas como posso eu ficar chateada por gostar de fazer coisas diferentes? Por ter optado pela família numa altura em que achei que seria o melhor para todos? Por querer sorver o melhor da vida? 

Tomei a decisão que me fez ser mais feliz. Fui e sou uma privilegiada. Mas agora sinto que a minha felicidade também passa pela minha autonomia financeira, pela minha vontade de voltar a ser activa e por trabalhar, mantendo, claro, esta minha paixão que é o blogue. 

Futuro, aqui vou eu.
[Wish me luck]








Fotografias - The Love Project
Penteado e maquilhagem - Cut by Kate
Camisola e calças - Ivens

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Quando temos de adormecer sozinhas



Tem sido uma fase particularmente difícil. No meu caso os meses mais difíceis com o Sebastião não foram os primeiros três, como para a maioria das mães. Tive um bebé tranquilo, que dormia imenso, que acordava para mamar, dava um ar de sua graça e voltava a adormecer. Para mim o difícil é agora. Um bebé de cinco meses que desde há um mês quase não dorme nada. Birras monumentais para adormecer, no início ao fim do dia, agora ao longo do dia inteiro, muitos despertares nocturnos, muitos pedidos de atenção durante o dia, muito colo, muita agitação e muita resmunguice. Se antes podia sentar-me a jantar descontraída com o meu marido, talvez ver uma série, irmos até casa de amigos, agora tudo isso está fora de questão. Já li três livros diferentes sobre o sono, tenho pesquisado imenso, tentei uma rotina, não funcionou, tentei outra, voltou a não funcionar. Há dias em que não sei bem para onde me virar. O que fazer a seguir. Se aquela é a hora em que lhe devo dar banho, se lhe dou mama antes ou depois, se o mantenho connosco ou se o levo para a cama. Há dias em que estou perdida com tanta informação. Em que falo ao telefone com amigas de amigas que são mães na réstia de esperança que me digam alguma coisa que não saiba já. Há dias em que me sento a olhar para ele enquanto chora descontroladamente, depois de eu já ter tentado tudo, colo, mama, banho, música, white noise, e choro também. Ou rezo baixinho. Há dias em que estou quase quase a descontrolar-me e pego no telefone só para ouvir outra voz, apenas alguém que me diga que vai correr tudo bem. Para respirar fundo. Mas depois percebo que, na verdade, não está lá ninguém. E que toda a gente se pode ir embora, excepto eu. Que o pai está em viagens de trabalho, que a avó está a trabalhar e longe de nós, que as amigas têm pouca experiência. E toda a gente faz aquele sorriso condescendente quando digo que tenho sono, muito sono. E até acham estranho porque ele tem um ar tão bem disposto e dizem que vai passar. Mas não passa. Não passa e nós, mães, não nos podemos ir embora. Não podemos bater com a porta e voltar quando nos apetecer. Porque tudo o que queremos naquela altura, não é de alguém que venha com mais uma teoria de como fazer o seu bebé dormir em três dias, nem de histórias da carochinha de alguém que tentou qualquer coisa e resultou, nem de novos conselhos para nos baralhar mais os dias. O que nós queremos, verdadeiramente, e não temos coragem de pedir, é de alguém que nos bata à porta, passe uma mala com um pijama e uma escova de dentes para a mão e diga “Esta noite trocamos, vais para minha casa e eu fico aqui.” Porque todos os bebés são diferentes e o que resulta com os outros pode não resultar com o nosso. A única coisa que permanece é o que sentimos. E toda a solidão, frustração e cansaço que está cá dentro, passa para dentro deles. Como se fossem esponjas. Agora digam-me, qual é a sensação de tentar adormecer quando se sentem desamparadas?




Joana Diogo
A Joana escreve no O que vem à rede é peixe
 
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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O cancro que levou a minha avó.

É a única doença da qual tenho medo. Não que viva atormentada, mas já me aconteceu estar à espera dessa notícia. Como se fosse uma inevitabilidade. Já olhei para o telefone a vibrar e esperei três segundos, respirei, e pedi "que não seja a dar-me a notícia de que está doente". Já me passou.

A minha avó Isabel morreu tinha eu 12 anos. 
Lembro-me bem demais. 
Do bom e do mau. 

Lembro-me do cheiro a café "a fingir" nas manhãs em que lá dormia, que mais tarde percebi ser cevada, das viagens de autocarro com os velhotes em que me levava, uma das quais metia piscinas e escorregas e outra uma cheia de flores de papel penduradas, que penso agora ser Campo Maior. Se fechar os olhos, recordo-me da finura dos lábios, dos óculos grossos, das pernas altas, parecidas com as minhas talvez, dos pés grandes, como os meus, da voz trémula e de uns olhos meigos mas tristes, de muita pancada da vida, de uma filha que lhe morreu ainda bebé, de operações e de uma saúde debilitada. Lembro-me dos mimos, de nos deixar saltar no sofá e brincar com aqueles bonecos de louça que eram bibelots nos armários dela, que na minha casa não havia, para muita pena minha. Lembro-me do dia em que vomitei amoras, lembro-me das mãos delas, enrugadas, grandes, a secar-me o cabelo e de me deixar dormir na mesma cama dela, a "fazer caixinha" (e não conchinha, como a maior parte das pessoas diz): curiosamente lembro-me de ser eu a meter o meu bracinho por cima da barriga dela. 

Lembro-me de me mostrar a cicatriz na zona da mama, que lhe foi retirada. Lembro-me de viver ainda algum tempo (anos?) assim, mais debilitada mas a dar a volta por cima, aparentemente. Lembro-me de piorar, porque o cancro chegara aos ossos. Lembro-me de quando me disse, no hospital, que já não me iria ver casar. Lembro-me de lhe mentir, com o sorriso maior que arranjei, que ia ver sim senhora e que para não dizer disparates. Quis tanto acreditar naquela mentira... 
Já não a vi nos últimos dias, em que o delírio e as visões da mãe faziam parte, em que já não via nem conhecia ninguém. Ainda bem, não teria tido coragem. Mas já sonhei que me tinha ido lá despedir. 

Não me lembro do momento em que recebi a notícia. Lembro-me de que o dia do funeral foi o mesmo dia em que apareci pela primeira vez na televisão, no Buereré (que era gravado) com os Onda Choc. E lembro-me dessa ambivalência. De estar triste e de estar contente e de disfarçar que estava contente porque me pareceu mal. Não me lembro de muito, depois.

Tenho saudades dela. Tenho pena de não a ter tido mais na minha vida. Tenho muita pena que ela não me tenha visto crescer, não me tenha visto namorar, estudar, ter filhas. Foi-se embora cedo. 

E a partir daí, fiquei com medo desta doença, que mina as vidas de tanta gente. Curiosamente, quando descobri um nódulo na mama que aumentou muito, depois de ter a Isabel, e cuja biópsia foi inconclusiva, quando tive de ser operada, nunca senti medo, excepto na véspera, como escrevi aqui. Achei que não seria nada de grave e que, mesmo que fosse, eu iria superar. 
Mas, a verdade é que, de forma geral, esta doença assusta-me. Vejo muita gente a passar por ela e felizmente mais, muito mais, pessoas a superá-la. Vejo muitas famílias a viver com esse fantasma. Olho para estas pessoas de uma forma absolutamente inspirada, pela força que encontram e que arranjam para acalmar e contagiar os outros. 

A doença que levou a minha avó não há de levar mais ninguém que eu ame, se Deus quiser. Que não vos falte força para enfrentá-la, caso se tenham cruzado com ela. 
E que estejamos atentos a nós, bem atentos, que façamos análises e exames regulares para que, caso nos bata à porta, seja cedo para lhe darmos um chuto.


   
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Erros que cometo com a minha filha.

E que não devia. Ou que não são erros. São o que me apetece fazer ou, melhor, o que faz sentido para nós.

Às vezes jantamos sentadas no chão da cozinha. 

Enquanto cozinho, a Irene vai brincando perto de mim com o que lhe apetecer na altura. Às vezes está a fazer comida para os bebés dela, noutras está a dar concertos... Acabo de cozinhar, dou-lhe a provar e acabamos por comer sentadas no chão da cozinha. Não creio que a mesa seja assim tão importante, nem acho que, por jantarmos na cozinha, ela um dia não saiba jantar à mesa - como se isso não se pudesse comunicar na altura. 

Durante a semana, toma o pequeno-almoço na minha cama. 

O meu quarto é uma suite e, dá-me jeito, enquanto me arranjo, ir estando com um olho nela e a conversar com ela. É um momento nosso, calmo, em que vamos pondo a conversa em dia e, já agora, também consigo ir explicando qualquer coisa nos desenhos animados que ela vá vendo. De manhã costumamos ver o Zig Zag na RTP2 que tem boa curadoria mas, mesmo assim há, às vezes, alguns temas que requerem acompanhamento. 




Adormeço-a abanando-lhe o rabo e a cantar e já tem 3 anos.

Seja qual for o motivo pelo qual isto agrade às duas (eu sei que o meu é sentir que, de alguma maneira, estarei a apressar o adormecimento - mesmo que seja tanga) não me incomoda que tenha 3 anos e não adormeça sozinha. Eu tenho 31 e, por mim, se pudesse escolher também não adormeceria sozinha, para quê exigir-lhe isso? Se nem sempre me apetece? Se muitas vezes desespero? Sim, mas é isto. Faz parte. 

Não costumo dizer que não lhe compro algo que peça

Ela farta-se de pedir que lhe compre coisas. Não costumo comprar-lhe nada. Até porque, sendo blogger, como vocês sabem, vamos recebendo sempre umas coisas aqui e ali e, por isso, sinto que a minha quota de "presentes" até é excedida. Costumo dizer - não é totalmente mentira - "'Tá bem, se a mãe vir, se calhar a mãe compra!". A verdade é que não devo ver. Faço compras online e, por isso, só veria os brinquedos se fosse procurá-los mas, se os vir, um dia, se calhar até compro. Nem sempre me apetece dizer que não, raramente, até. A não ser quando tenho que "dar lições" que é como tenho explicado a importância dos "nãos" cá em casa.

Amamento-a e tem 3 anos. 

Ainda tenho de escrever um post sobre isto. Sobre amamentar aos 3 anos e quem me faz sentir "pior" com isso serem mulheres. Nós. Umas com as outras. São outros 500. Amamento-a. Tem 3 anos. Faz parte da nossa rotina de adormecimento. Ela pede e eu dou. Faz parte. É assim. E será enquanto fizer sentido para ambas. 


Usa fralda para dormir à noite e tem 3 anos.

I don't care. Está conversado entre as duas que o objectivo será deixar de ter a fralda molhada quando acorda e ir fazer xixi. O preço a pagar dessa conversa é chamar-me muito aflita de manhã e eu ter de sair da cama a correr para a ir por na sanita, por isso está tudo encaminhado, mas sem pressas. Não quero que haja o peso do fracasso nem ter de andar a trocar roupa de cama a meio da noite. Está tudo a ir com calma. 

E tantas outras coisas que na volta nem tenho consciência. Seja como for, estas somos nós por agora e estamos bem. E vocês? "Erros" que cometam? 


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domingo, 29 de outubro de 2017

A primeira birra (de muitas) da Luísa.

Caso eles ainda não estejam nessa fase, há algo de muito assustador quando eles fazem a primeira birra a sério. É normal fazerem-no, não estão a ser mimados, não precisam de palmadas, é provável que tenham sono, ou fome, estejam frustrados, faz parte do crescimento e, apesar de não os reconhecermos naquele instante - caso até então tenham sido bebés "fáceis"-, sabemos que se irá repetir mais e mais vezes. 

Apesar de saber que esse dia ia chegar, não soube como reagir. Foi uma coisa muito "fora", como se nunca tivesse presenciado nada assim, como se fosse mãe de "primeira viagem", quando a Isabel já teve episódios semelhantes nos níveis de "descontrolo" e também nós sem sabermos bem como a ajudar, principalmente numa fase de terrores nocturnos. 

A Luísa, perante uma troca de fralda, começou a chorar. A chorar muito. A debater-se. Depois não queria vestir-se. Aquilo começou a escalar. Estava cheia de sono, mas só me apercebi naquele momento, até então não tinha dado sinais. Começou a dar luta, a espernear. Fomos para a cama para tentar que dormisse, mas já tinha ultrapassado o limiar. Tentei distraí-la, sossegá-la, dar-lhe mama, abraçá-la, retirá-la do quarto, mas já não consegui. Batia, mordia-se a ela própria, gritava e eu cheia de medo que se magoasse. Foi uma senhora birra, uma daquelas ao nível do Exorcista. Tentei acalmá-la mas aquilo só a enervava mais. Veio o David, tentar distraí-la, mas nada. Colo era sentido como um colete de forças. Ainda piorava. E ficámos os dois a olhar para ela, à espera que se cansasse. Não nos ocorreu mais nada. Sentimo-nos impotentes.

Quando ela acalmou, veio para o meu lado e pediu mama. Respirou fundo, muitas vezes. Adormeceu.

E com isto tudo veio aquela sensação de que está a crescer. E que crescer implica, muitas vezes, dor. Implica contrariedade, frustração. Para ela, para nós. Vieram-me as lágrimas aos olhos durante o episódio. Tantas vezes brinco a dizer que estou deserta que aprendam a fazer ovos mexidos de manhã para eu poder ficar a dormir mais uma hora, mas são estes momentos que me lembram de que quanto mais crescem, maiores os desafios. 

E estamos ainda tão longe da adolescência. :)
Que até lá tenhamos construído uma relação tão sólida e respeitadora que torne tudo mais fácil. Assim o espero. Para já, venham as primeiras birras. Inspirar, expirar, tentar ajudar, redireccionar, abraçar, esperar. Vai passar.  

Fotografia The Love Project



Entretanto tenho de reler este post sobre a forma como tentava lidar com as primeiras birras da Isabel:


 
 
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Não queria esta família.

Mãe para um lado, pai para o outro. Nunca mais se falaram. Avó que me ensinou a amar e que falece aos meus seis anos. Avô que vai falecendo e que vou assistindo aos fins-de-semana na casa dele enquanto estava com o meu pai. Outra avó, que ainda hoje me veio a voz dela à cabeça (a forma como me chamava e me dizia olá e não só os piparotes na cabeça que me doiam por ter as unhas grandes). 

Natais em que o dia 24 era cheio de família (que grande parte nunca me senti muito ligada, antes pelo contrário) e o dia 25 que deixou de existir com o pai vá-se lá saber porquê. Aniversário do pai também desapareceu, deixei de poder estar. Só um telefonema, tal como no Natal. Dia 25 na casa da família de um pai que me acolheu. Pessoas que mal sei o nome, por não ter relação, mas que me trataram tão bem. 

Natais rápidos de muita gente que de muitas maneiras mostrava que não queria mais ou que não queria estar. Aniversários esquisitos. Páscoas desconfortáveis onde o meu refúgio - e mesmo assim, houve alturas em que me foi tirado - era o meu quarto. 

Gritos. Discussões. Eu fazer de mensageira. Indirectas. "Porque é que não pedes ao teu pai?". "A tua mãe é isto e aquilo". 

Sem relação. Sem poder quebrar por sentir que era amparada. Quando a obrigatoriedade cai, vêm os afectos, a realidade. 

E a verdade é que quem se gosta não se junta só porque tem que ser. 

Eu não queria esta família. 

Apesar. Apesar de ainda ontem ter visto no meu irmão a frescura e beleza de quem não sentiu os cortes na pele. Sorria. Lindo. Anjo de luz. A iluminar. A fazer o coração de todos a funcionar. O João, que me recebeu, que apareceu sempre no último momento. No último momento que me salvou por não ter mais ninguém. Aquele último momento onde a culpa me fazia sentir que tudo o que havia mal no mundo era por eu não ser suficiente aos olhos de quem não me parecia amar. 

Tudo o resto, injustamente mas naturalmente, enterrado algures. Enterrado com tristeza, amargura, solidão, medo. 

Não queria esta família. 

Mas.

Mas, quando entro no carro com a Irene, antes de me sentar no lugar do condutor, bafejo o vidro dela e desenho um coração como o meu pai me desenhava quando a minha mãe me levava para longe com ela, porque "tinha que ser". 

Mas, quando no outro dia olhei para a Irene vi que o nariz dela parece um bico de passarinho e, como a minha mãe me fazia, pus-lhe o dedo horizontalmente por baixo e disse-lhe "descansa o bico". 

Mas, quando ontem fui adormecê-la li o livro que a minha avó que me ensinou a amar e a brincar me deu. 

O livro em que ela escreveu uma dedicatória talvez por saber já que me ia deixar tão cedo. O livro onde até escreveu à mão os números para eu saber também como se escreve à mão. 

Que cuidado. Que carinho.










E hoje, hoje veio a voz da minha outra avó querida quando me dizia "Olá" e punha Rosa à frente do meu nome. Nunca gostei, mas hoje tive saudades, muitas. 


Pior é quando se tem saudades do que ainda existe e parece que temos as mãos agarradas ao coração que, se o largarmos, se parte. 


Não queria esta família, mas é esta família que fez com que consiga partilhar convosco o que sinto, para que todos sintamos mais, sejamos mais e percamos menos. 

Todos os dias. 

Irene
Tenho um coração onde tu cabes e onde te podes espreguiçar à vontade.

a Mãe está aqui.


Obrigada, mãe, por teres guardado o livro da avó Irene.


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sábado, 14 de outubro de 2017

As Mães também podem amuar? Hoje amuei.

As mães também podem amuar. Também podem chorar baixinho. E alto. E ficarem zangadas. E ralharem. E desejarem que algumas coisas fossem diferentes. E queixarem-se. 

As mães podem tudo isso. Não têm de ser sempre adultas, sempre ponderadas, sempre equilibradas, sempre fortes. 

Hoje estou zangada, amuada, frustrada. Uma coisa pequenina, talvez sem importância, de que amanhã provavelmente me irei rir. Talvez. Mas hoje teve e deixou-me com um nó na garganta. Desejei que fosse mais fácil, que fosse diferente.

Hoje ia ao cinema com o David. A condição era deixar a Luísa já a dormir. Não consegui, não a consegui adormecer a tempo de ir ao cinema. E eu queria tanto ir ao cinema com o David. Chamem-me infantil, chamem-me fútil. Venham dizer-me que se tivesse problemas a sério é que queriam ver. Estejam à vontade para não sentir empatia. Hoje não aceito sentir culpa.

Hoje amuei. Desejei ter uma filha diferente, que me desse uma folga, que não fosse tão exigente para dormir. Que não dependesse tanto de mim [como se isso não fosse o esperado de uma bebé, eu sei, eu sei tudo isso, conheço a teoria toda.] Na prática, gostava que, de vez em quando, fosse diferente. Que hoje tivesse sido diferente. Que me surpreendesse. 

É pedir muito? Pedir que não demore uma eternidade a adormecer, que não acorde de novo passada uma hora, que não acorde de hora a hora durante a noite? É ser muito exigente? É queixar-me de barriga cheia porque há quem esteja pior? Não quero saber. Hoje não aceito a culpa de me estar a queixar. Hoje quero desabafar, quero amuar, quero sofrer acompanhada. 

[Já tenho consulta marcada para tentarmos melhorar a nossa vida. Recuso-me a aceitar isto como algo "natural" porque já não me está a fazer bem].

Amuem, amuem à vontade. Desabafem. É libertador.

[Obrigada por me ouvirem].





 Fotografia - The Love Project
Cabelo e maquilhagem - Cut by Kate

 
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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sozinha em casa - uma doente, a outra imparável. SOCORRO!

A Isabel está doente desde domingo, pelo que tem ficado em casa. Temos ficado em casa. Eu e as duas. Isto sim, minhas amigas, é prova de fogo. Mil vezes agarrar nelas e ir ao parque, pô-las a correr e a comer terra. Mil vezes a correria da praia, o tira e põe de braçadeiras na piscina, o "senta-te e come, por favor" do restaurante. Estar em casa com as duas, estando uma doente, é um mestrado, só suplantado quando estiverem as duas doentes (aí atingirei o doutoramento). Não quero esse grau tão depressa, valha-me a virgem santíssima.

Eis o nosso dia em falas de mãe.

DE MANHÃ
(que se confunde com noite porque dormir é para meninos, não há cá disso: há despertares de hora a hora e idas à casa de banho e cocó e água e dores de barriga e medir a febre e uma chora de um lado e a outra acorda do outro).

- Luísa, beijinhos à tua irmã, não. Tem dói-dói.
- Isabel, desvia a cara. A Luísa é bebé e não percebe.
- Luísa, nesse copo não.
- Não, Isabel!!! A Luísa não pode beber daí. Vou buscar o dela.
- Isabel, não se bate! Não se bate! Não batas na tua irmã. A mão é para dar festinhas, para comer, para pintar. 
- Não, com os pés muito menos!!!
- Luísa, nem pensar! Bater não!
- Sai de cima da tua irmã.
- Tu muito menos, não se pisa.
- Não, não. Dá festinha. Isso, linda. Isso mesmo. Que querida. A mana assim fica melhor! Não, beijinhos, não.
(isto em looping)

DE TARDE
(onde se deseja rapidamente que chegue a noite, apenas e porque chega uma alminha e o rácio de duas para uma acaba, mas ainda a procissão vai no adro)

- Luísa, agora é para fazer óó. Dormir.
- Isabel, tens de dormir mais um bocadinho, o teu corpo precisa de descansar.
- Shiuuuu Luísa.
(separá-las de quarto, adormecer cada uma de sua vez, uma acorda e acorda a outra, readormecer uma e outra e passar umas três horas nisto. Tudo bem.)
- Luísa, não desmanches o puzzle da mana, não.
- Isabel, já sabemos que há brincadeiras que não podemos fazer quando a mana está acordada. ("mas ela nunca dorme", responde. Verdade.).
- Meninas, não quero ver mais palmadas, não, não, não.
- Não me interessa quem começou, não se dá palmadas.
- Come só um bocadinho de maçã cozida, Isabelinha.
- Amor, tens o teu copo para beber. Nesse, não.
- Sim, dou colinho às duas.
- Luísa, esses lápis não! Olha que te magoas.
- Isabelinha, já sabemos que há brincadeiras que só quando a mana não está ao pé.
- Amor, oh estás triste? Vamos para a mesa, então.
- Luísa, em cima da mesa em pé, não!
- Queres ir fazer cocó? Esses bicharocos malandros, pá.
- Luisinha, não abras a torneira. Não, outra vez não, já chega.
- Já vai passar a dor de barriga, meu amor. Amanhã vais estar melhor. A mãe dá festinhas.
- O piaçaba, não!
- Dá cá o papel higiénico!
- Vá meninas, lavar as mãos.
- Já chega de água. Boa.
- Luísa, conseguiste tirar toda a roupa passada a ferro da gaveta. Que chatice!!!
- Tens tantas coisas para brincar, porquê, porquê, porquê, meu Deus?!
- Não, beijinhos com a boca aberta, não. Isso, festinhas. Queridas, queridas.
- Olha que coisas mais lindas que eu aqui tenho. Adoro-vos.

(- David, a que horas chegas?)


DE NOITE
(não se fala muito para não acordar ninguém, nos parcos minutos em que dormem, mas o que sai são maioritariamente impropérios e lamentações, mais ou menos em sussurro ou dito apenas para dentro)

- Fartinha disto.
- Por que é que não estás a dormir ao lado dela? Assim demoras muito a chegar lá e ela grita e acorda a irmã!
- Coitadinha. Preferia estar eu doente.
- Isto sim é dose.
- Farta de dar mama.
- Raios partam.
- Quero dormir duas horas seguidas, por favor, Deus do céu!
- Vai passar, minha querida. Vai passar.
- Luísa, dormir.
- O balde e a esfregona!
- Sei lá eu! 
- O termómetro, onde está o termómetro?! Tem pernas?

O bronze que eu não tenho (nem terei nos próximos 4 anos?), a lingerie que eu não tenho, o branco imaculado que eu, com uma filha a vomitar, não teria. Mas a expressão que eu faço é mais ou menos esta. Sem o ar sexy.
Bem, afinal, devia ter procurado outra fotografia.

*fotografia weheartit




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